Uso profissional de ferramenta avança para 24%; 79% da população rejeitam automação em contratações

Para economistas ouvidos pela Folha, o recuo no medo de substituição pela tecnologia tem mais a ver com um rebote do catastrofismo inicial com a IA do que com o cenário real, em que os primeiros trabalhadores começam a ser trocados por robôs. “As pessoas ouviram que iria acabar o emprego de todo mundo, mas ainda existe trabalho no mercado”, diz Daniel Duque, pesquisador do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas).
O cenário de divisão na opinião dos trabalhadores se assemelha mais ao diagnóstico de incerteza feito pelo vencedor do Nobel de economia Daron Acemoglu. Para ele, a IA não deve eliminar empregos na mesma proporção em que sua adoção avança.
Ao mesmo tempo em que a tecnologia pode substituir trabalhadores em tarefas específicas, reduzindo a demanda por mão de obra, também pode diminuir os custos de produção e aumentar a eficiência. Com a redução de preços, aumentaria a procura por outros bens, o que criaria novas tarefas e empregos. É difícil avaliar em que medida as duas tendências vão se equilibrar, porque os ganhos de produtividade ainda são incertos.
Um estudo do FGV Ibre, com base em metodologia da OIT (Organização Internacional do Trabalho), concluiu que quase 30 milhões de trabalhadores no Brasil estavam em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa no terceiro trimestre do ano passado. Isso é equivalente a 29,6% da população ocupada.
Desse total, cerca de 5,2 milhões estavam no nível mais elevado de exposição, em especial os mais jovens, mais escolarizados, na região Sudeste e trabalhando no setor de serviços, com destaque para informação, comunicação e serviços financeiros.
O economista Tomás Aguirre e a equipe da Governance AI, grupo acadêmico com foco nas implicações políticas do avanço da tecnologia, mostram outro lado da moeda: a maior parte das carreiras amplamente afetadas pela IA tem mais chances de se adaptar à nova economia, seja por especialização técnica, por ter maior poupança para suavizar a transição ou por ser mais jovem.
Com base em dados demográficos dos EUA, o grupo mostra que, na verdade, os profissionais em trabalho de escritório são os mais vulneráveis, uma vez que engenheiros da computação e advogados, por exemplo, estão muito expostos à IA, mas também teriam mais recursos para se adaptar após a demissão. O artigo divide a exposição à tecnologia em duas situações: substituição e complementaridade.
O cenário do Brasil é mais grave, diz Aguirre. O país tem grande taxa de trabalhadores expostos à substituição e menor poupança. “O risco que eu vejo está na classe média: ela pode ficar descoberta, porque a proteção social, pensando no Bolsa Família, não é desenhada para ela”, afirma o economista.
Entre os brasileiros, por uma questão de escolaridade e perfil da economia, com maior peso para o funcionalismo e serviços menos intensivos em tecnologia, há mais ocupações ligadas a tarefas repetitivas, como área de recursos humanos ou composição de jingles. Serão áreas como essas em que haverá um enxugamento da força de trabalho, de acordo com Duque, do FGV Ibre.
“Toda revolução tecnológica tem seus perdedores de curto prazo”, diz o economista do FGV Ibre. Os dados, segundo ele, mostram que os jovens, neste primeiro momento, são as principais vítimas.
Para Duque, cargos gerenciais associados a pessoas mais experientes são menos vulneráveis. “A IA não toma decisões, e quanto mais a pessoa cresce em um cargo, mais aumenta a atribuição de tomar decisões”, afirma.
A pesquisa do Datafolha mostra que a maior parte da população brasileira é contra o uso de automação na tomada de decisões. Para 79% dos entrevistados, por exemplo, o uso de modelos de IA em contratações e demissões é inadequado.
A adoção da tecnologia é frequente tanto em plataformas de recrutamento, como Gupy e Infojobs, quanto nos departamentos internos de recursos humanos, responsáveis por definir cortes durante anúncios de demissão.
Mais de dois terços da população (68%) também desaprova o uso de IA em decisões sobre tratamentos médicos. No mesmo patamar, 67% são contrários a decisões automatizadas na concessão de crédito, prática comum no ambiente bancário.
Fonte: Jornal Folha de São Paulo